“Meus filhos não tiveram o privilégio de tomar água potável”. De forma emocionada, o relato da moradora do interior de Hulha Negra, Sônia Góis, foi um dos momentos marcantes de uma audiência pública realizada na última sexta-feira (31), em Hulha Negra.
Moradora Sônia Góis contou sua história
O evento foi promovido pela Comissão de Agricultura, Pecuária, Pesca e Cooperativismo da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, presidida pelos deputados Zé Nunes (PT) e Luciano Silveira (MDB). A iniciativa foi solicitada pelo deputado estadual Adão Pretto Filho (PT), após ouvir o pedido do prefeito de Hulha Negra, Fernando Campani, representando o Consórcio Público Intermunicipal de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental dos Municípios da Bacia do Rio Jaguarão (Cideja). O evento ocorreu no Salão de Eventos do Centro de Referência da Assistência Social (CRAS), em Hulha Negra, e reuniu autoridades políticas regionais e estaduais, representantes de entidades de ensino superior, cooperativas, alunos da rede pública e a comunidade em geral.
No espaço aberto para falas, Sônia, que reside no interior desde 1988, falou do drama vivido ao longo dos anos. “Tenho dois filhos adultos que foram criados lá no assentamento e hoje moram na cidade. Durante esse tempo nunca tive água potável, eles nunca tiveram o privilégio de tomar água potável. Lembro que quando meu filho pequeno de 9 anos que mora comigo, quando tinha 6 anos, em época de seca, me pediu água quando chegou da escola e eu não tinha nada. Meu marido tinha ido buscar na ponte e ainda não tinha voltado. Meu filho começou a chorar, fiquei triste e fui entreter ele na sombra para esperar”, relatou a moradora, que também aproveitou a audiência para cobrar as autoridades. “Peço, por favor, que os governos olhem por nós. Não podemos mais ficar assim, nosso povo do assentamento passar necessidade de água”.
Evento contou com a presença de autoridades, empresários, universidade e comunidade Foto: Silvana Antunes TP
A audiência, programada para o Dia Mundial das Cidades, teve como tema “A insegurança hídrica e a realidade do campo e da cidade”, e representou um passo importante na busca por soluções conjuntas e duradouras para os impactos do clima e da escassez de água na Região da Campanha. Durante o encontro, o representante da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Saulo Aires de Souza, participou de forma on-line apresentando o Plano Nacional de Segurança Hídrica. Também foi abordada a Lei Federal nº 14.904/2024, que garante à população o direito à adaptação climática.
Audiência foi proposta pelo deputado Adão Pretto Filho (PT) e contou com a presença de autoridades regionais
PRONUNCIAMENTOS
O prefeito Fernando Campani reforçou que a região não pode decretar a todo momento situação de emergência, mas precisa buscar soluções reais. “Nós não podemos mais ficar achando que nós somos um território que, eventualmente, o clima fica extremo. Nós somos assim, assim como o nordeste também é assim. Então, nós temos que parar de dizer que nós somos, nós somos alvo de eventos que acontecem quando a gente menos percebe. Temos que parar com isso, porque não é razoável, não é racional eu dizer que é emergente algo que a gente sabe que todo ano acontece”, frisou Campani.
O prefeito de Candiota e presidente do Cideja, Luiz Carlos Folador, falou da importância do tema. “Hoje é um marco nesta região. Precisamos considerar essa região similar ao nordeste brasileiro. No período do inverno temos boas chuvas concentradas e no período do verão, a seca e temos que conviver com isso. Nos últimos três anos no município de Candiota, tivemos oito decretos de emergência, todos homologados pela Defesa Civil Estado e Brasil. Tenho algumas ideias, temos uma barragem que atende Hulha Negra e Candiota, da UTE Pampa Sul, então temos alternativas”.
O presidente da Comissão de Agricultura, deputado Zé Nunes, reforçou a fala de Campani destacando que se faz necessário criar um grupo de trabalho para buscar recursos junto ao Governo Federal. “Os últimos acontecimentos demonstraram que é uma região de insegurança hídrica. Temos condições de elaborar propostas e projetos que venham de encontro a amenizar e tentar resolver, porque possibilidades existem”.
O deputado estadual Adão Pretto Filho, proponente da audiência, disse que esse tipo de audiência precisa ser permanente na região. “Nós precisamos, queridos companheiros, pensar e repensar a política nacional de segurança hídrica. Nós temos que ter esse debate profundo na região da Campanha. Precisamos de orçamento, precisamos de política pública, precisamos da mão do governo, de todos os entes da Federação Brasileira. O presidente Lula tem sensibilidade, veio de uma região semelhante no Nordeste, para olhar pra cá”, reforçou.
JÁ FOI NOTÍCIA NO IMPRESSO



