CRISE CLIMÁTICA

Segundo meteorologista, região foi atingida por tempestades severas com ventos estimados de até 170 km/h

Imagem enviada ao TP, captada do radar de Canguçu, mostra a tempestade em cores amarelo, laranja e vermelho chegando em toda faixa de fronteira às 23h56 do domingo (20)

Fernando Rafael fez uma análise do que pode ter afetado a região

Desde a madrugada de segunda-feira (21), antes da 1h, a região busca se restabelecer dos estragos e prejuízos causados pelas tempestades que atingiram a região da Campanha e fronteira com o Uruguai, incluindo sudeste do Estado. Árvores caídas, postes de energia quebrados, casas destelhadas e empreendimentos destruídos deixaram a região desolada.

Buscando entender um pouco do que aconteceu, o Tribuna do Pampa conversou com o meteorologista Fernando Rafael, natural da região, portanto, além de profissional especializado, conhecer da realidade dos municípios da fronteira. 

PRIMAVERA

De acordo com Fernando, o período é de primavera que entrou oficialmente na terça-feira (22), é um fator que já traz cenários diferentes para o clima. “Do ponto de vista meteorológico, quando inicia o mês de setembro, já estamos na primavera. É uma época em que há muitas trocas bruscas de massas de ar, já que estamos saindo do inverno e indo em direção ao verão. Também é uma época que costuma chover mais. Tudo isso já favorece um ambiente mais propício para a formação de tempestades. Neste ano, em especial, temos como plano de fundo o El Niño, que está cada vez mais intenso – talvez o mais intenso já registrado – e que favorece um aumento da frequência dos dias de chuva e ambientes de tempestades destrutivas.”

SUPERCÉLULA

Conforme lembra o meteorologista, o Estado e região já possuíam uma previsão que indicava ambiente favorável para formação de tempestades muito intensas na região da Campanha gaúcha, fronteira com o Uruguai e Zona Sul. “Tínhamos uma massa de ar bastante quente, úmida e instável, além de uma frente fria avançando da Argentina e do Uruguai.”

Ele explica que a região foi afetada por tempestades severas, também chamadas de supercélulas, que são as tempestades que apresentam rotação em seu interior. “Um dos mecanismos importantes que diferencia um cenário comum de temporais de um cenário mais grave é o cisalhamento vertical do vento, que é a variação da velocidade e da direção do vento com a altura. Ao longo da atmosfera, dos 12 quilômetros de altura do perfil da troposfera, que é a primeira camada da atmosfera, onde se formam os fenômenos meteorológicos, o cisalhamento vertical do vento favorece a formação dessas tempestades severas, que apresentam rotação em seu interior, normalmente mais intensas, que costumam produzir ventos mais fortes e granizos maiores, ou seja, tempestades mais destrutivas. O que ocorreu agora foi a formação de uma linha de instabilidade que se formou no Uruguai e avançou por toda a fronteira. Tivemos várias tempestades severas avançando de forma alinhada sobre a região, produzindo ventos fortes. Os ventos variaram entre 110 e 130 km/h, de forma generalizada na região, com alguns pontos podendo ter apresentado rajadas entre 130 e 170 km/h em decorrência da destruição apresentada como paredes tombadas, carretas viradas, estruturas retorcidas, árvores inteiras que foram arrancadas com a raiz”.

DOWNBURSTS E TORNADOS

Segundo Fernando, as tempestades severas, ou também chamadas de supercélulas, que são essas tempestades que têm rotação em seu interior, podem produzir tornados, que são colunas de ar giratórias que descem da base da nuvem em direção à superfície, ou downbursts (macroexplosões), que são correntes de vento que descem de dentro da tempestade em direção à superfície. 

Ele explica que o que diferencia as macroexplosões dos tornados são os padrões de estragos observados na superfície. “Quando se tem coisas caídas para o mesmo lado, como por exemplo, árvores e telhados tombados para o mesmo lado, ou seja, danos lineares, que a gente chama, seriam downbursts. Já quando se observa coisas tombadas para lados diferentes, como por exemplo, um telhado tombado para um lado, uma árvore tombada para outro, rastros de destruição com coisas muito próximas do local mais atingido sem muitos danos, aí isso pode estar associado a tornado. Há casos em que podem ocorrer os dois fenônemos, mas isso só uma avaliação posterior com um drone, em imagens aéreas para ver o padrão dos estragos. Na análise, também podem ser usadas imagens de radar meteorológico de dupla polarização, mas infelizmente a região ainda não possui esse tipo de radar, que é um radar que faz uma varredura na vertical e na horizontal e traz consigo, vários parâmetros que ajudam a diferenciar os fenômenos.” 

O radar meteorológico de Canguçu, apesar de não ser de dupla polarização, identificou o avanço de tempestades severas sobre a região. 

RECOMENDAÇÕES

O meteorologista também deixa algumas recomendações para a população em caso de vento forte e chuva intensa. “Procurar o cômodo mais interno da casa, como o banheiro, se protegendo com um cobertor ou colchão sobre a cabeça, evitar ficar próximo de janelas, buscar um local abrigado imediatamente, tirar os aparelhos eletrônicos das tomadas, evitar ficar perto de árvores, de postes, ou de objetos que possam ser arremessados. Em caso de chuva intensa, evitar atravessar áreas alagadas porque a pessoa pode acabar sendo levada pela correnteza. São atitudes que a população tem que ter em mente nessas situações de temporal para que não aconteça nenhuma tragédia.”

Por fim, Fernando orienta para que a população fique atenta aos alertas emitidos pela Defesa Civil. “O El Niño costuma favorecer mais chuva e temporais na região na primavera e no outono, e deve continuar até o outono de 2027. Por isso, é importante a população estar atenta aos avisos e alertas emitidos pela Defesa Civil, porque as previsões para os próximos meses são preocupantes.”