REVOLUÇÃO FARROPILHA

Tombamento do Cerro de Porongos pelo Iphan é reconhecimento histórico

O massacre dos Lanceiros Negros foi o episódio mais sombrio da Guerra Farrapa. No mês de abril, equipe do Instituto visitou o município gaúcho para finalizar o parecer técnico do processo de reconhecimento do local como Patrimônio Cultural do Brasil

Local foi palco de um dos episódios mais obscuros da Revolução Farroupilha

 

No dia 23 de abril, uma equipe do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) esteve no município gaúcho de Pinheiro Machado para visitar o Cerro de Porongos. A atividade teve como objetivo buscar subsídios para finalização do parecer técnico do processo de tombamento da região.

O Cerro de Porongos teve seu tombamento solicitado em 2006 pelo ministro da Cultura à época, Gilberto Gil. O local foi palco de um episódio marcante e sensível para a história gaúcha e nacional: o massacre dos Lanceiros Negros em 1844, na fase final da Guerra dos Farrapos.

A equipe que visitou o local foi composta pelo superintendente do Iphan no Rio Grande do Sul, Rafael Passos, e pelos servidores Rafael Klein e Sara Munaretto. O objetivo da missão foi coletar informações para a definição precisa da área de tombamento e seu entorno e para a elaboração de diretrizes de gestão. Esses dados são essenciais para a finalização da etapa de instrução técnica do processo de reconhecimento do bem cultural.

Encerrada a etapa de instrução técnica, o processo passará por uma série de análises dentro do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização (Depam), para, então ser apreciado pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, instância máxima decisória do Iphan. O Conselho aprova o tombamento dos bens, que passam assim a compor um dos Livros do Tombo: Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico; Livro do Tombo Histórico; Livro do Tombo das Belas Artes; e Livro do Tombo das Artes Aplicadas.

PRESENÇA NEGRA NO RS

Embora já existam, no estado, bens tombados relacionados à escravidão, ainda não há patrimônio reconhecido pelo Iphan que coloque a história do povo negro e da população escravizada no centro da narrativa, ressaltando a sua luta pela liberdade. Para Rafael Klein, historiador do Instituto, o reconhecimento se torna ainda mais relevante por representar uma recuperação e valorização da história e da presença negra no estado.

“A gente tem trabalhado nessa ótica da importância de Porongos para a identidade negra do Rio Grande do Sul, inclusive por se relacionar a um episódio marcante no conflito da Revolução Farroupilha, que é uma das principais fontes do reconhecimento identitário da população gaúcha”, explica.

PAISAGEM DE MEMÓRIAS

A área, localizada na zona rural do município de Pinheiro Machado, foi palco de um episódio da Guerra dos Farrapos (1835-1845), em que cerca de 100 soldados negros foram mortos numa emboscada pelas tropas imperiais. O ataque resultou na quase dizimação do chamado Pelotão dos Lanceiros Negros, formado em sua maioria por escravizados que lutavam pela prometida liberdade, “prêmio” que ganhariam por combaterem pelos Farrapos.

Posteriormente, o episódio foi atribuído a um acordo entre Davi Canabarro (Farrapo) e o Conde de Caxias (Império), com o objetivo de dar um fim conciliatório ao conflito, sem, contudo, cumprir a promessa de liberdade aos escravizados.

No pedido de tombamento do bem, solicitado em 2006 pelo então ministro da Cultura, Gilberto Gil, Porongos é descrito como uma “paisagem de memórias, lugar de muitas histórias, contadas por pais, avós e tios, histórias que associam fatos do passado a casos de discriminação e de superação, vividos por eles ou por seus conhecidos”.

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