Futebol é espetáculo

Eu tinha 11 anos quando vi pela primeira vez o Brasil ser campeão do mundo em 1970. O esquadrão nacional era mais ou menos assim que se falava da seleção com grandiloquência. Vi o Brasil ser campeão mundial mais duas vezes, em 1994 e em 2002. Em 1994 eu nem lembro direito onde e com quem eu estava assistindo a final. Nada que se compare ao título de campeão do mundo do Internacional em 2006. Se em 1970 os jogadores eram brasileiros, jogando aqui e representavam 90 milhões em ação, hoje não me vejo representado por nenhum deles. Se eles não se interessam em participar do dia a dia das minhas emoções e jogam em qualquer lugar em troca de dinheiro, não há motivo para serem meus ídolos, nem referências, com algumas raras exceções.

Porém, o futebol tem o seu valor. Em 2022 eu estava morando em Buenos Aires, quando a Argentina ganhou e milhões de argentinos foram às ruas. Até fiz dois filmes no celular com a multidão cantando, vibrando e descendo a avenida em direção ao Obelisco, ponto tradicional de comemoração das torcidas argentinas. Muitos de forma ufanista e alguns agradecendo aos atletas que eram segundo cartazes o único motivo de orgulho que tinham de serem argentinos. Certo exagero, mas o país naquele momento, como atualmente, não tem muito a comemorar
Como somos movidos a motivações, com todos falando sobre a copa vamos nos envolvendo um pouco a cada dia. O problema é torcer para o Brasil. Como consolo chegamos a copa do mundo numa situação parecida com a do Chelsea que foi o décimo colocado no campeonato inglês após ganhar o último mundial de clubes da FIFA, coisa de competição que pode ser resolvida em apenas uma partida, A história das copas nos mostra que é muito viável, não provável, acontecer como a poucos dias em Portugal quando um time da segunda divisão ganhou a Copa de Portugal.

… sempre é possível que um time encaixe por uns dias e tudo dê certo.

Por aqui vamos ter que torcer com Vinícius Júnior que é muito menos eficaz na seleção do que foi um dia Casagrande, que atualmente é comentarista. Qualquer um que acompanha futebol encontra uns 30 jogadores que atuaram no ataque em clubes brasileiros melhores que Casagrande. Nenhum jogador com destaque no passado fala em Vinícius Júnior com algo melhor que um bom jogador, longe de ser tratado como genial. Neymar foi Top3 duas vezes na Bola de Ouro, atrás de Messi e Cristiano Ronaldo, a última vez em 2017, quando ainda era um atleta. Hoje Neymar tenta jogar com condição física muito precária.

Futebol é esporte coletivo e sempre é possível que um time encaixe por uns dias e tudo dê certo. Já vimos Criciúma, Juventude, Paulista e Santo André ganharem a Copa do Brasil.

Pesquisas mostram que a maioria dos torcedores do Santos têm mais de 60 anos, como eu que sou um sobrevivente dos tempos de Pelé. Não vejo a juventude muito interessada por futebol e por outros esportes menos ainda. Quem gosta de futebol são ingleses e alemães que lotam estádios mesmo com seus times em 10º ou 15º lugar. Pessoas com menos de 30 anos que não viram ou não lembram de ter visto o Brasil ser campeão do mundo podem ter uma emoção maior, mas não creio que a geração que cresceu com um celular na mão ficará muito emocionada com esse título.

Futebol é espetáculo. Johann Cruyff, célebre jogador holandês falava isso na década de 70 do século passado. O melhor da copa do mundo é o espetáculo. Este ano com aumento de seleções e qualidade reduzida o espetáculo será maior, mais longo e tecnicamente mais pobre. Hoje são 48 seleções. Em 1970 eram 16.

JÁ PUBLICADA NO IMPRESSO

Comentários do Facebook