DIA DA DEGOLA

Prefeitura de Hulha Negra afirma que intenção de troca da expressão do feriado foi apenas uma sugestão

Um marco relembrando o período histórico foi instalado próximo a Lagoa da Música Foto: Divulgação

O município de Hulha Negra carrega em sua história um importante momento que ficou conhecido como Dia da Degola – episódio ocorrido durante a Revolução Federalista, uma guerra civil entre 1893 e 1895, pouco tempo após a Proclamação da República. Segundo a história, cerca de 300 soldados republicanos foram rendidos e degolados as margens da Lagoa da Música. 

A data, em 29 de novembro, é considerada feriado municipal e apesar da história triste que carrega, costuma ser lembrada em memória aos mortos. Em 2019 começou a ser realizada a Cavalgada da Degola, liderada pelo CTG Lagoa da Música – entidade tradicionalista que leva o nome do local que serviu de palco para a disputa sangrenta. O evento, que recebia o apoio da Prefeitura de Hulha Negra, costumava ser finalizado com uma bênção as margens da Lagoa da Música, em memória dos soldados mortos. Conforme explicado ao jornal pela entidade, “o grupo não estava festejando guerras ou mortes, mas relembrando um marco histórico do município”.

Lagoa da Música

DIA DO ABRAÇO

Nos últimos dias, porém, um conteúdo divulgado pelo prefeito da cidade, Fernando Campani (PT), gerou uma grande repercussão no município. Isso porque o atual gestor, disse querer fortalecer a história da Revolução, “porém não admite resgatar a vergonhosa prática executada durante a guerra, mas admite fortalecer o abraço que foi, supostamente ou estimada, atitude corrente para animar, fraternalmente, o final das lutas sangrentas.”

Na ocasião, ele afirmou que pretendia enviar para a Câmara de Vereadores e Vereadoras, a solicitação de alteração, na lei existente, da expressão ‘Dia da Degola’ por ‘Dia do Abraço’. “Não queremos mudar o sentido da lei que resgata fatos relacionados à história do nosso Estado, mas queremos ser mais pedagógicos promovendo a prática do abraço que é universalmente relacionado com a paz e a fraternidade, em oposição aos episódios devastadores da Degola e de todas as práticas vergonhosas que as guerras proporcionam à civilização humana inteligente e moderna em qualquer parte do mundo”, sustentou o prefeito que ainda anunciou a pretensão de criação da criação da “Festa do Abraço com Mel”, aproveitando para fortalecer o setor apícola. 

O anúncio foi considerado negativo por uma parcela da população, que lembrou que a data fazia parte da histórica do município e que não podia ser alterada. Ainda, que várias demandas precisavam ser tratadas para melhorar a infraestrutura da cidade. Pela internet, comunidade e autoridades realizaram inúmeras manifestações contrárias ao anúncio.

APENAS SUGESTÃO

O TP procurou a Prefeitura para um posicionamento quanto ao assunto e, por meio de nota, a assessoria de Imprensa informou que o projeto será melhor avaliado e estudado, pois o possível nome ‘Dia do Abraço’, foi uma sugestão apresentada pelo prefeito e não uma definição. “A proposta não tem o objetivo de apagar ou diminuir a história de Hulha Negra nem os acontecimentos da Degola, ocorridos na região da Lagoa da Música, mas de buscar uma nova forma de ressignificar essa data, com uma mensagem de paz, união e valorização da vida. Essa construção será feita com diálogo e participação da sociedade, das entidades e da população, para que a decisão considere também a memória histórica e a opinião da comunidade”.

DIA DA DEGOLA 

A Revolução Federalista foi uma guerra civil que ocorreu no sul do Brasil após a Proclamação da República. Instalada pela crise política gerada pelos federalistas, grupo opositor que pretendia libertar o Rio Grande do Sul da governança de Júlio de Castilhos, conquistar uma maior autonomia e descentralizar o poder da então recém proclamada República. Empenharam-se em disputas sangrentas que acabaram por desencadear a luta armada, que durou de fevereiro de 1893 a agosto de 1895 e foi vencida pelos seguidores de Júlio de Castilhos. Sob o comando de Zeca Tavares, combatentes federalistas (Maragatos) e republicanos (Pica-paus), comandados pelo general Isidoro Fernandes se enfrentaram durante sete dias às margens do Rio Negro. Relatos contam que 300 soldados republicanos foram rendidos mediante garantia de vida e contidos em uma mangueira de pedra para gado, local que ficou conhecido como “Potreiro das almas” e friamente degolados à beira da Lagoa da Música, embora os historiadores reduzam esse número a 30.

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