Cem anos de Raymundo Faoro

2025 representa o ano de centenário do nascimento de um ilustre gaúcho, natural de Vacaria, chamado Raymundo Faoro, colega advogado, ex-Presidente do Conselho Federal da OAB. Filho de agricultores, depois de 1930 sua família mudou-se Caçador (SC), onde fez o curso secundário. Formou-se em Direito, em 1948, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Transferiu-se, em 1951, para o Rio de Janeiro, onde advogou e fez concurso para a Procuradoria do Estado, de onde se aposentou.

Colaborou na imprensa desde o tempo de estudante universitário. Cofundador da revista Quixote, em 1947, escreveu para diversos jornais do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo. Além de jurista, foi um dos mais importantes cientistas sociais brasileiros, autor de ensaios de direito e ciências humanas. Referência obrigatória na teoria política do Brasil contemporâneo, Faoro conquistou o respeito dos intelectuais do país através de suas análises do Estado, que contribuíram para o desenvolvimento da literatura crítica nacional.

Seus leitores mais atentos lhe atribuíram dons proféticos. Em “Os donos do poder”, publicado em 1958, analisou a formação do patronato brasileiro e buscou as raízes de uma sociedade na qual o poder público é exercido, e usado, como se fosse privado. É um teorema que Faoro demonstrou percorrendo a história luso-brasileira dos seus primórdios até Getúlio Vargas e antecipando os rumos seguintes. Em enquete feita pela revista Veja com os principais intelectuais brasileiros, este ensaio foi incluído entre os vinte livros mais importantes já publicados por autores brasileiros. “Os donos do poder” é uma das maiores obras da história brasileira.

No ensaio “A pirâmide e o trapézio”, publicado primeiramente em 1974, Faoro interpretou com maestria e originalidade a obra de Machado de Assis, na qual se encontra a dissecação da sociedade da capital do país no final do século XIX. Ao escrever seu ensaio, levou em conta os estudos machadianos até o início dos anos de 1970, dialogando especialmente com Augusto Meyer, Eugênio Gomes, Astrogildo Pereira, Raimundo Magalhães Jr. e Sílvio Romero.

Este vasto estudo sobre Machado de Assis pode ser visto como uma continuidade e um complemento do ensaio anterior. Seu grande objeto de estudo era ainda o Brasil, pois pretendia captar, através da vida que Machado de Assis infundiu em seus personagens, o país, o funcionamento concreto e cotidiano da ação dos donos do poder e seus agregados, a presença dos valores e da ideologia, os vícios e as virtudes, a constrição das instituições (família, Estado, igreja), os preconceitos, o amplo e variadíssimo jogo da vida social e individual.

Foi presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, de 1977 a 1979. Lutou pelo fim dos Atos Institucionais e ajudou a consolidar o processo de abertura democrática na década de 1970. Com ele, a sede da OAB, no Rio, transformou-se num reduto de resistência pacífica contra o regime militar. Partiu de lá a primeira grande denúncia circunstanciada contra a tortura de presos políticos. No governo João Figueiredo, lutou pela anistia ampla, geral e irrestrita. Com a anistia e a retomada das liberdades políticas, a casa de Faoro nas Laranjeiras tornou-se lugar de encontro de políticos.

Desde o momento em que deixou a OAB, foi colaborador permanente da revista Senhor (segunda fase), inspirador e parceiro na revista IstoÉ e no Jornal da República, das quais foi presidente. Colaborou também na revista Carta Capital. Dentre outros, contribuindo, sobremodo, para o jornalismo no Brasil. Trata-se, ao fim e ao cabo, Raymundo Faoro, de um dos grandes!

 

JÁ FOI CONTEÚDO NO IMPRESSO

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