O primeiro debate da TV brasileira

A eleição de 1974 foi o começo do fim do regime militar, com a ascensão do MDB, partido da oposição, e a grande derrota imposta ao partido do governo, a ARENA. Renovou-se, naquela assentada, os membros do Congresso Nacional, com todos os assentos da Câmara dos Deputados e um terço dos assentos do Senado Federal em disputa. Tratou-se, no mais, da primeira eleição realizada sob a Presidência de Ernesto Geisel, gaúcho de Bento Gonçalves.

A expressiva vitória do MDB e a perda de espaço da ARENA no Senado assustou o regime, que nos anos seguintes lançou a Lei Falcão e o Pacote de Abril com o objetivo de desfavorecer a oposição nas próximas eleições. Em abril de 1974, o regime militar completava dez anos com poucas ameaças no horizonte. O ano de 74 terminaria, porém, comproblemas para o governo. Depois de dez anos de ascensão, aquele ano marcou o início da queda lenta, mas inexorável, que seria suplantada em 1985.

Quando a contagem dos votos começa, a surpresa é geral. O próprio Presidente Geisel é obrigado a reconhecer, em sua mensagem de fim de ano, a vitória do MDB: “Ressentimentos – e não há razão para cultivá-los – não me tolhem, nem sinto simples constrangimento – que até seria compreensível – ao registrar que o MDB alcançou substancial avanço”.

Focando no Rio Grande do Sul, a eleição aprazada para novembro de 74 seria notabilizada por um dos fatos mais marcantes da história política brasileira, qual tenha sido o debate televisivo entre os dois candidatos ao Senado, frequentemente apontado pela historiografia política como o primeiro debate eleitoral televisionado do Brasil. O debate entre Paulo Brossard (MDB) e Nestor Jost (ARENA), realizado em 9 de setembro de 1974 na TV Gaúcha (atual RBS TV), é reconhecido como o primeiro debate político televisionado do Brasil. Nestor Jost e Paulo Brossard de Souza Pinto debateram em frente às câmeras em momento histórico da TV brasileira. O embate ocorreu sem ofensas. Paulo Brossard foi visto como o vencedor e acabou eleito senador.

A vitória de Brossard, posteriormente confirmada nas urnas, consolidou a leitura de que o debate teve impacto real sobre a opinião pública, funcionando como catalisador do chamado “voto de protesto” de 1974. O embate televisivo entre Brossard e Jost antecipou práticas que só se tornariam comuns décadas depois, na redemocratização. Em retrospecto, ele simboliza a transição entre uma política tutelada e uma política exposta, na qual a palavra, a imagem e o argumento passaram a disputar centralidade — mesmo sob um regime autoritário.

Foi neste contexto que o debate entre Brossard e Jost emergiu como um evento paradigmático, que não apenas cristalizou, especialmente para o eleitorado gaúcho, a excepcionalidade daquele pleito, como colocou em análise a influência do meio televisivo nos processos eleitorais, o que só cresceria a partir dali. Surgiu uma estrela, no mais. E essa estrela, ali adiante e já no Senado, tomaria o protagonismo de combate ao regime militar, a partir da contundente defesa dos pilares do liberalismo contra o agir arbitrário do Palácio do Planalto.

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