Pode pensar, não pode falar

Esta semana havia um tema importante na pauta, o Internacional vai cair para a série B. Parece que não têm volta. De repente surge um possível salvador, Abel Braga, o maior treinador da história do time. Repercutiu e ninguém entendeu o motivo que levou Abel a aceitar a empreitada até que ele esclareceu e acrescentou, dizendo bobagem, falou de rosa (nem vou escrever o quê) e virou notícia nacional e internacional.

Parece até que falou uma novidade. Que horror! Ainda tem gente que pensa assim.

O preconceito é movido por quatro fatores principalmente: a ignorância, a estupidez, a hipocrisia e o poder.

O poder pode tudo. Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, é homofóbico e responde as perguntas ofendendo repórteres com ‘Tu é burra’, ‘Cala a boca’ e ‘Tu é feia’. É mais ‘gentil’ com as mulheres. Já decidiu que gêneros são os que as pessoas nasceram, nada de trans e outras coisas. A imprensa até já esqueceu de salientar o comportamento homofóbico, entre outros comportamentos, do presidente. Por lá aceita ou não participa da próxima entrevista coletiva. Se Trump falasse de ‘rosa’ ninguém daria bola. Com os poderosos o que não devia é tolerado.

…a maturidade e as experiências nos ensinam que a sabedoria vem acompanhada da gentileza.

Outra questão é a ignorância. Tudo que mais falamos, mais aumenta. Por exemplo, Bolsonaro deputado era (e continua sendo) homofóbico e muitas coisas mais que viraram notícias pelo escândalo, como dizer a uma deputada que ela era ‘tão feia que nem merecia ser estuprada’. Tanto falaram de seus desmandos que o deputado virou presidente da República. A ignorância ao que se chama de neurolinguística (a ciência que estuda a relação entre o cérebro e a linguagem, focando em como a linguagem e os padrões neurológicos influenciam nossos comportamentos) é o que leva as pessoas a ensinarem a negação do errado, ou seja, ‘tu não deve ser homofóbico’, quando o correto é ensinar a ‘respeitar as preferências e opções dos outros, ainda que sejam diferentes das tuas’.

A estupidez humana é o que leva a mídia a focar numa frase e divulgar com requintes de relevância. O escândalo, a morte, o fracasso, o conflito, o preconceito, é o que mais faz as pessoas assistirem os telejornais e quase todos os demais programas. É o que o ser humano quer receber como mensagem. Sempre haverá alguém querendo vender o que o povo quer receber.

A hipocrisia nasceu com o ser humano. Noel Rosa, o grande compositor brasileiro, escreveu certa vez: ‘Quanto a você, da aristocracia, que têm dinheiro, mas não compra alegria, há de viver eternamente, sendo escrava dessa gente que cultiva a hipocrisia’. Ressalto, quem tem dinheiro não compra alegria. Mas pode rir um pouco consumindo hipocrisia.

Abel nasceu na década de 50 do século passado e cresceu sendo ensinado pelos pais, professores e líderes religiosos a respeito do que era certo ou errado. Abel que acompanhou pela vida todos os humoristas que fizeram rir este país, Jô Soares, Chico Anísio, entre outros. Por décadas o humor foi levado ao público com base nas diferenças das minorias. Jô Soares e Chico Anísio estão cancelados por uns quantos atualmente. Com certeza seriam taxados de muito homofóbicos.

É melhor os da geração que nasceram nos anos 50 do século passado e tem cerca de 70 anos evoluírem, até em razão de que a maturidade e as experiências nos ensinam que a sabedoria vem acompanhada da gentileza. Pode pensar, não pode falar.

JÁ FOI CONTEÚDO NO IMPRESSO

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