Collor Presidente

Possuo certo fascínio, sob o prisma da curiosidade histórica, pela eleição presidencial de 1989, pela escolha popular realizada neste pleito (o primeiro pleito presidencial pós-ditadura militar) e, ato contínuo, pelo período do governo Collor. Fernando Collor, é preciso dizer, representa uma das figuras mais emblemáticas da história política brasileira, sobretudo nesta quadra pós-1988, seja por conta da sua meteórica ascensão e do fenômeno eleitoral que foi, seja por conta da sua queda, não menos meteórica, também da forma como foi.

Recentemente, aliás, a Globoplay lançou a série documental “Caçador de Marajás”, produção dedicada a desenvolver, à minúcia, a ascensão e a queda política de Fernando Collor de Mello (primeiro presidente eleito diretamente após a ditadura e o primeiro a sofrer impeachment nas Américas). Trata-se, a esse respeito, de um documentário de fôlego, composto por sete capítulos muito bem-produzidos. Indico, sobremodo, que assistam.

Referido o documentário global, gostaria, no entanto, nesta de coluna de hoje, de trazer outra indicação, agora de um livro, também acerca de Collor e dos acontecimentos que o nortearam, qual seja a obra “Collor Presidente: trinta meses de turbulências, reformas, intrigas e corrupção”. O livro, de autoria do professor Marco Antonio Villa, analisa de forma crítica e detalhada os trinta meses do governo Fernando Collor de Mello (90–92), período marcado por instabilidade, reformas econômicas, conflitos institucionais e escândalos, como sabemos.

Villa reconstrói o contexto da primeira eleição direta para presidente após a ditadura, mostrando como Collor se apresentou como o “caçador de marajás” e venceu com um discurso moralizantee disruptivo, e com uma nova forma de se fazer campanha no Brasil.

Já quanto ao governo, o autor dedica especial atenção ao Plano Collor. Embora reconheça a intenção de combater a hiperinflação e promover reformas liberalizantes, Villa sustenta que a condução foi autoritária, improvisada e politicamente mal calculada.

Outro eixo central da obra é o isolamento político de Collor, agravado por disputas internas no governo, desorganização administrativa e sucessivas crises ministeriais. Esse quadro abriu espaço para o fortalecimento das denúncias, especialmente aquelas envolvendo PC Farias, operador financeiro de um esquema que acabaria por sustentar o processo de impeachment.

O livro culmina na análise do impeachment de 1992, tratado como resultado não apenas das denúncias, mas também da incapacidade do presidente de construir governabilidade. Villa enfatiza o papel do Congresso, da imprensa e da mobilização popular como elementos decisivos para a queda de Collor.

Em síntese, Collor Presidente é uma obra que interpreta o governo Collor como um experimento político fracassado, símbolo das dificuldades da jovem democracia brasileira em lidar com lideranças personalistas, crises econômicas profundas e padrões persistentes de corrupção, oferecendo uma leitura crítica e contextualizada desse período decisivo da história política recente do Brasil, sendo leitura obrigatória para aqueles que, assim como eu, carregam interesse por este período turbulento da recente história política brasileira.

JÁ FOI CONTEÚDO NO IMPRESSO

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