A coluna de hoje vem à tona para indicar um filme recente, qual seja: “Nuremberg”, lançado neste ano de 2026 aqui no Brasil. Nuremberg resgata um dos episódios mais decisivos do século XX: os julgamentos realizados após a Segunda Guerra Mundial para responsabilizar líderes do regime nazista por crimes contra a humanidade. Longe de ser apenas uma reconstituição histórica, a obra se constrói como um drama jurídico intenso, centrado menos na ação e mais no confronto moral, político e psicológico entre vencedores e vencidos. A produção, aliás, é pautada em livro, a quem interessar possa: “O Nazista e o Psiquiatra” (The Nazi andthePsychiatrist), de Jack El-Hai.
A narrativa acompanha os bastidores do tribunal internacional instalado na cidade alemã de Nuremberg, onde figuras centrais do regime de Adolf Hitler foram julgadas. Se a ONU brotou dos escombros da Guerra, os Tribunais Internacionais também brotaram dali.
Imediatamente após o fim do conflito, em 1945, o psiquiatra do Exército dos EUA, tenente-coronel Douglas Kelley, recebe a missão extraordinária de avaliar o estado mental de Hermann Göring, ex-general nazista e braço direito de Hitler, além de outros altos oficiais alemães – uma tarefa que se mostrava ainda mais complicada nos anos 40 do século passado. O livro expõe os diálogos e diagnósticos oriundos dessa missão. E o filme se destina a essa abordagem. Russell Crowe e Rami Malek, nos papéis de Göring e Kelley, respectivamente, foram brilhantes.
O grande mérito da produção está na forma como transforma diálogos jurídicos em tensão dramática. Os interrogatórios são conduzidos como verdadeiros duelos intelectuais, em que cada palavra carrega peso histórico. A atuação do elenco — especialmente nos papéis de promotores e réus — é marcada por contenção e precisão, evitando caricaturas e apostando na ambiguidade: os criminosos não são retratados como monstros abstratos, mas como homens reais, o que torna tudo ainda mais perturbador.
Visualmente, o filme aposta em uma fotografia sóbria, com tons frios e ambientes fechados que reforçam a sensação de claustrofobia moral. O tribunal não é apenas um cenário, mas um símbolo: ali, pela primeira vez, a humanidade tentou estabelecer parâmetros universais de justiça para crimes de guerra. Nesse sentido, Nurembergdialoga diretamente com temas contemporâneos — responsabilidade estatal, limites da obediência e a fragilidade das instituições diante de regimes autoritários.
Outro ponto relevante é o ritmo deliberadamente cadenciado. Não se trata de um filme de entretenimento fácil, mas de reflexão. Em diversos momentos, o silêncio fala mais do que os discursos, e a ausência de trilha sonora grandiosa reforça o peso das decisões em jogo.
Em síntese, Nuremberg não é apenas um filme histórico: é uma obra sobre consciência, culpa e memória. Ao revisitar os julgamentos que ajudaram a moldar o direito internacional moderno, o filme lembra que justiça não é um dado garantido — mas, uma construção, que requer constante vigilância e proteção.
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