A primavera

Faz tempo que eu tenho apreciado muitas primaveras. Gostava mais quando andava por aqui na primavera da vida, infância, adolescência, juventude. Lembro que o ator Paulo Autran dizia que um poema muito singelo, porém cativante, ganhava novos contornos à medida que os anos passavam e para explicar melhor ao repórter que o entrevistava declamou o poema de Casimiro de Abreu, Meus oito anos:

“Óh, que saudades que eu tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

Que aromas, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das laranjeiras, debaixo dos laranjais!”

E seguia o poema que relata a essência de sua percepção infantil.

Talvez tenha sido pelos melhores encantos desta estação que cheguei ao mundo num dia primaveril de outubro.

Os anos passaram e pensando na adolescência lembrei de uma canção que sempre tocava no ‘dia de ação de graças’ que era promovido pelo Bradesco em grande evento. Neste, o cantor soltava a voz para cantar ‘Estão voltando as flores’, composição de Paulo Soledade:

“Vê, estão voltando as flores,

Vê, nessa manhã tão linda,

Vê, como é bonita a vida,

Vê, a esperança ainda.”

Esta semana, ouvindo Nara Leão, o sujeito deve ter uns quantos anos ou muito bom gosto para ouvir Nara Leão, voltei a admirar uns versos de “Manhã de Carnaval”, de Luiz Bonfá e Antônio Maria:

“Manhã, tão bonita manhã,

Na vida uma nova canção.

Cantando só teus olhos, teu riso, tuas mãos,

Pois há de haver um dia em que virás

Das cordas do meu violão,

Que só teu amor procurou,

Vêm uma voz

Falar dos beijos perdidos

Nos lábios teus.”

A primavera nos traz mais sol e com ele a sensação de uma vida com mais calor, sem os excessos dos meses quentes de verão. Talvez tenha sido pelos melhores encantos desta estação que cheguei ao mundo num dia primaveril de outubro. Para mim, a alegria vem acompanhada de clima ameno, sol e a beleza das cores pelos campos, gramados e jardins. Passei a maior parte da vida em meio ao concreto das cidades grandes e ao pensar na vida simples e nos lugares simples onde o que há de mais belo e relevante encontramos na natureza, lembrei de uma canção que foi cantada por Mercedes Sosa e Soledad Pastorutti: ‘Canção das coisas simples’, onde dizem que os homens voltam sempre aos lugares onde amaram a vida.

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