Metade Sul: vagabundos e preguiçosos é tudo que não somos

Não bastasse o nosso sofrimento estampado em números, mostrando nosso atraso no desenvolvimento, na semana passada, durante um programa de televisão da Rede Pampa (Rede TV), um médico e produtor rural desandou a falar horrores sobre a chamada Metade Sul do Rio Grande do Sul.

Com uma fala carregada de preconceito e falta de conhecimento histórico (muitos a classificam como criminosa), na ânsia de fazer um ataque político contra o PT, o médico Luiz Pereira Lima, em outras palavras chamou os moradores da BR-290 para baixo de vagabundos. Ou seja, tudo que não somos! Além disso, atacou a população nordestina de forma gratuita. “O Rio Grande do Sul tem uma parte nordestina entre aspas, da BR-290 para baixo, onde o PT domina. Por que acima não tem? Porque o pessoal trabalha, gosta de trabalhar. Infelizmente a região sul não é assim. E olha que eu tenho propriedade na região sul e a conheço a palmo (sic) da minha mão. De repente pegam algumas pessoas lá a mostram quem inventou o trabalho, são capazes de matar e por isso tem o PT lá”, disse.
É preciso rebater para esse senhor e para todos os que pensam desta forma preconceituosa e fora de propósito, que para começar, a Metade Sul é pluripartidária e extremamente democrática, quando os nossos municípios são governados pelas mais várias matizes políticas, inclusive pelo PT, que ora está a frente de cidades importantes como Pelotas, Rio Grande e Bagé. Além do mais, o subdesenvolvimento regional tem raízes históricas e não de composição étnica.

Desendustrializada, a Metade Sul se debate para poder avançar. Contudo, quando nos deparamos com esse tipo de fala e entendimento de nossa realidade, vemos que a luta é ainda mais árdua

Dizer que não gostamos de trabalhar, de forma generalizada e vil, é desrespeitar um povo inteiro e sua história. Uma região marcada ao longo de centenas de anos por conflitos entre Portugal e Espanha pelo território; distribuição indiscriminada com concentração de terras; conflitos armados e sangrentos internos e externos como a Guerra Farroupilha e as revoluções Federalista e de 1923; aumento de exclusão por parte do Império, entre tantas outras questões, nos tornaram menos desenvolvidos regionalmente, sem falar em nossa ampla falta de densidade demográfica – outro fator de desenvolvimento mais lento e que é decorrência dos já citados.

Desendustrializada, a Metade Sul se debate para poder avançar. Contudo, quando nos deparamos com esse tipo de fala e entendimento de nossa realidade, vemos que a luta é ainda mais árdua. Não precisamos de preconceito e diminuição, precisamos de articulação política, olhar diferenciado dos governos estadual e federal para um projeto desenvolvimentista específico.

Temos que repudiar veementemente a fala, mas façamos todos nós, da manifestação desse cidadão, um estímulo ainda maior para buscarmos o desenvolvimento que tanto sonhamos e que historicamente nos é sonegado.

JÁ PUBLICADA NO IMPRESSO

Comentários do Facebook