O eco dos Porongos e a consciência negra

Neste dia 20 de novembro o Brasil tem pela primeira vez em sua história um feriado nacional para refletir sobre seu passado, seu presente e seu futuro. O dia é em referência a morte por esquartejamento do líder do maior dos todos os quilombos, Zumbi dos Palmares, em 20 de novembro de 1695.

Último país das Américas a abolir a escravidão, o Brasil prolongou por mais de 300 anos os horrores de escravizar pessoas, no caso brasileiro, negros arrancados a força de seus lares no continente africano, para trabalhos forçados, gratuitos e subumanos além-mar.

Os mais de três séculos de escravidão deixaram marcas indeléveis até hoje na sociedade brasileira. Marcas, negadas até agora por uma elite, que é a mesma que escravizava até o século retrasado. É a mesma gente que fomenta o racismo estrutural, que impõe a maioria dos negros e negras uma espécie de escravidão moderna. Maior parte na sociedade brasileira, o povo negro segue sendo a parcela mais pobre, mais encarcerada e mais morta violentamente.

O episódio mais cruel e que mancha sobremaneira a nossa tão glorificada Revolução Farroupilha, agora ganha relevância e desnuda um processo que marca a luta de emancipação negra no Brasil. Habilidosos e com uma destreza para o combate sem igual, o Corpo de Lanceiros Negros do Exército Farroupilha era temido pelo exército do império. Eles aceitaram lutar em troca de liberdade e foram traídos.

Último país das Américas a abolir a escravidão, o Brasil prolongou por mais de 300 anos os horrores de escravizar pessoas

O massacre ocorreu no Cerro dos Porongos – localidade do interior de Pinheiro Machado, há 181 anos, na madrugada de 14 de novembro de 1844, quando um esquadrão de lanceiros negros foi surpreendido e arrasado pelas tropas imperais. Mais de 100 homens negros foram assassinados. Os que não escaparam para quilombos ou para o Uruguai acabaram enviados à corte, no Rio de Janeiro, onde seguiram escravizados até a Lei Áurea, 43 anos depois. Há controvérsias sobre o que teria facilitado o Massacre dos Porongos. A maioria das evidências históricas, porém, indica que a chacina é resultado da traição do general David Canabarro, homem forte dos farroupilhas, que quatro meses depois assinou a Paz de Ponche Verde, em Dom Pedrito, sendo que a questão dos negros era algo que travava das negociações.

Numa carta do barão de Caxias (depois virou duque) ao coronel imperial Chico Pedro, o Moringue (depois virou barão), segundo o historiador candiotense Tailor Lima, além das coordenadas da ação de Porongos, ele ordenava que no ataque, o quanto possível se preservasse as vidas brasileiras, especialmente as brancas.

Neste sentido que o eco dos Porongos ainda está presente e estará enquanto houver um último resquício racista. Que este dia 20 de novembro nos sirva de inspiração para que o Brasil (e o mundo) seja uma nação que garante dignidade e vida boa para todos os seres humanos, independente de sua cor, raça e credo.

JÁ FOI CONTEÚDO NO IMPRESSO

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