A coluna de hoje lida com uma figura histórica, bem como de um livro que aborda a sua trajetória. A figura histórica é Tiradentes. E o livro é: “O Tiradentes: uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier”, de autoria de Lucas Figueiredo. A obra de Figueiredo talvez seja a biografia mais completa de Tiradentes já escrita no país. Ao passar pelas páginas, o leitor adentra numa história que se passa no final do século XVIII e é ambientada em localidades do Brasil, dos Estados Unidos e de países da Europa e da África. E, para facilitar essa viagem, o próprio autor traz em sua obra um valoroso material de apoio: começa com dois mapas, mostrando, no primeiro, as capitanias de Minas Gerais e do Rio de Janeiro com indicação dos principais pontos onde a trama se desenrola; e o segundo, a partir de uma carta de Vila Rica (atual Ouro Preto, Minas Gerais) dos anos 1788-1789, assinala o local de residências, prédios públicos, logradouros e igrejas. Há, no mais, um gráfico que aponta a curva da produção de ouro nas Minas Gerais. E duas listas, finalmente: uma que atualiza e localiza os topônimos citados e outra que elenca os principais personagens, com uma descrição de cada um.
A obra de Lucas Figueiredo traz uma interpretação abrangente e inédita de quem foi Tiradentes, congregando elementos historiográficos tais como: a experiência familiar desafiadora; os anos de juventude; o período infrutífero como mascate e minerador; o momento em que senta praça nos Dragões, com quase trinta anos de idade; as ações como alferes; o serviço ao longo de quase uma década na corporação, descobrindo minas de ouro, construindo estradas, combatendo malfeitos e enfrentando criminosos que ameaçavam as rotas comerciais coloniais; o consequente e íntimo conhecimento dos caminhos e descaminhos de Minas Gerais e, ainda, o serviço militar no Rio de Janeiro.
O autor reconstrói com maestria as Minas Gerais do final do século XVIII. E não ignora, diga-se, o importante papel das mulheres naquele cenário, tampouco o papel dos escravos e da escravidão, algo que gerou intensa divergência entre os revolucionários mineiros – assim como entre os revolucionários norte-americanos que os inspiraram.
No coração deste livro há algo especial, não há como negar, embora ele caminhe para muito além daí: o envolvimento de Tiradentes na famosa Conjuração Mineira. Há muito de novo entrelaçado desta narrativa dramática, que continua sendo parte fundamental da história do Brasil: a trama, os conspiradores, os traidores, as denúncias, as prisões, as inquirições, o julgamento, a sentença e, por fim, a execução de Tiradentes no Rio de Janeiro. O livro retrata passo a passo de maneira extremamente rica em detalhes.
Da leitura, chamou-me atenção o que consta da narrativa da execução do alferes. No alto do patíbulo, enquanto o cadáver de Tiradentes pendulava preso à corda, o frei Penaforte, depois de recitado um versículo bíblico, apontou a causa de todo aquele horror: segundo ele a causa era o “louco desejo de liberdade”. Talvez tenha sido mesmo. Porém, de louco, o desejo não tinha nada. E segue não tendo… seriam loucos os que sonham com a liberdade e os que por ela clamam? Creio que não. Vale a leitura!
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