Doutrina Monroe

Todos acompanhamos os acontecimentos havidos na Venezuela no fim de semana passado. Pela primeira vez na história os Estados Unidos da América patrocinaram diretamente uma incursão militar em um Estado sul-americano, com invasão do território, ataques coordenados e captura do mandatário local.

Não irei aqui falar acerca do acerto ou do desacerto do ocorrido, tampouco acerca da legalidade da investida. Tampouco partirei para raciocínios políticos, até mesmo porque disso já estamos lotados, cercados, inclusive de nada raras “avaliações” provenientes do fígado. A questão, por outro lado, será: o que é a “Doutrina Monroe”, tão referida por analistas que pipocaram pela imprensa nacional abordando o imbróglio?

América para os americanos” é a frase que resume uma das políticas externas mais antigas e emblemáticas dos Estados Unidos, a Doutrina Monroe, de 1823.

Ela foi apresentada em 2 de dezembro de 1823 pelo presidente James Monroe (1817-1825) em discurso perante o Congresso dos Estados Unidos.

Enquanto presidente, Monroe resolveu antigas queixas com os britânicos e adquiriu a Flórida a Espanha em 1819. Mas é mais conhecido por ter afirmado um direito nacional de influência contra o imperialismo europeu no hemisfério ocidental.

“Os continentes americanos, pela condição de liberdade e independência que assumiram e mantêm, não deverão doravante ser considerados sujeitos de futura colonização por qualquer potência europeia”, disse Monroe no Congresso norte-americano.

O seu pensamento consistia em três pontos centrais: a não criação de novas colônias na América; a não intervenção nos assuntos internos dos países americanos; a não intervenção dos Estados Unidos em conflitos relacionados aos países europeus como guerras entre estes países e suas colônias.

A Doutrina reafirmava a posição dos Estados Unidos contra o colonialismo europeu, inspirando-se na política isolacionista de George Washington, segundo a qual “a Europa tinha um conjunto de interesses elementares sem relação com os nossos ou senão muito remotamente”, e desenvolvia o pensamento de Thomas Jefferson, segundo o qual “a América tem um Hemisfério para si mesma”, que tanto poderia significar o continente americano como o seu próprio país.

Em termos práticos, a doutrina defendia que Washington não toleraria mais a colonização, as monarquias fantoches ou a intervenção militar nos assuntos “internos” dos países do hemisfério ocidental por parte das principais potências imperiais europeias, nomeadamente Grã-Bretanha, França e Espanha.

Nos seus mais de duzentos anos, a “Doutrina Monroe” serviu para consolidar a hegemonia dos Estados Unidos nas Américas, sendo que o cerne da diretriz poderia ser resumido assim: qualquer intervenção externa no território das Américas seria considerada como um ataque aos EUA.

Por fim, é importante registrar que o pano de fundo que norteou o estabelecimento dessa doutrina foi o colonialismo europeu. Portanto, devemos sempre contextualizar esse paradigma. É certo, todavia, que a mesma doutrina, ao menos semanticamente, serviu para intervenções norte-americanas desapegadas dessa faticidade, sendo que o século XX carrega consigo vários exemplos disso. O recado, de todo modo, é (e foi sempre…) claro: “Na América quem manda somos nós”.

JÁ FOI CONTEÚDO NO IMPRESSO

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