Frei se consagrou como uma das mais importantes lideranças da região Foto: Divulgação
Com 19 anos, em 1975, o jovem Sérgio Antônio Görgen se ordenou frei franciscano na igreja de Posse de São Miguel, em Não-Me-Toque, cidade onde nasceu no Planalto Médio do RS. O recém frei já mostrava inquietude com as injustiças do mundo e ali começou uma carreira de fé, mas também de militância política em defesa da luta pela terra, pelos mais pobres, pelo meio ambiente e agora por fim por uma transição energética justa na região de Candiota, onde abunda o carvão mineral.
Foi assim até por volta das 8h da manhã da última terça-feira (3), quando o coração imenso do Frei Sérgio parou de bater, na Casa Ecológica dos Freis, onde morava há muito tempo, no assentamento Conquista da Fronteira, no interior de Hulha Negra.
70 anos de vida e 50 dedicados a fé e à luta
Em 1989, frei Sérgio (em primeiro plano), sobreviveu ao episódio conhecido como massacre da fazenda Santa Elmira. Na ocasião, além de ferido, ele foi preso
Na quinta-feira da semana passada (29 de janeiro), Frei Sérgio comemorou seus 70 anos. Ele estava radiante e como sempre cheio de planos e projetos em execução ou para serem feitos. Esteve em sua terra natal durante o aniversário, bem como, publicou um longo texto sobre ter chego a esta idade. Num dos trechos, ele se autodescreveu. “Por isto cheguei aos 70 anos meio assim, bruto, sincero demais, teimoso, xucro, irreverente, fora dos prumos estabelecidos, mas disposto e esperançoso na força do amor e da vida, pedindo sempre a Jesus e aqueles com quem caminho nas empreitadas da vida, que me farquejem e corrijam, para que meus muitos defeitos não sejam mais salientes que a Graça de Deus. Continuo acreditando na força do povo organizado, uma das expressões mais vigorosas da Graça e das Benções divinas”, escreveu.
Na década de 1980, frei Sérgio (roupa clara) recepcionou o renomado educador Paulo Freire em visita ao assentamento Conquista da
Fronteira, em Hulha Negra
No ano passado, o religioso completou 50 anos de ordenação. Em sua trajetória, a militância foi uma marca. Taxado de ‘comunista’ inúmeras vezes ao longo de sua vida, Frei Sérgio foi um dos fundadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), além de longa história de luta pela terra, inclusive tendo sido sobrevivente do chamado ‘Massacre da Fazenda Santa Elmira’ – episódio ocorrido em 1989, depois de uma ocupação do MST a uma propriedade rural no município de Salto do Jacuí, na região central do RS. Sobre o fato, ele escreveu um dos seus livros mais lidos.
Em janeiro, frei Sérgio participou da posse dos novos pároco e vigário de Candiota e Hulha Negra, junto ao bispo Dom frei Cleonir
Falando em literatura, Frei Sérgio foi um teórico, especialmente da questão agrária e também da agroecologia. Escreveu muitos artigos acadêmicos e livros sobre os temas.
Ele foi eleito deputado estadual para a Legislatura 2003-2006 com mais de 44 mil votos
Em suas lutas, ele recorreu a formas de protesto como greves de fome em diferentes momentos, incluindo mobilizações por crédito agrícola nos anos 1990, contra a reforma da Previdência em 2017 e atos em defesa da libertação do presidente Lula, em 2018, realizados em Brasília.
Filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT), Frei Sérgio foi deputado estadual entre 2003 e 2006 e concorreu novamente em 2022, não tendo se elegido, mas com expressiva votação: 26.858 votos.
Atualmente, o religioso estava à frente do Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ). Ambientalista, frei Sérgio jogou papel decisivo na luta pelo carvão mineral e para estender a vida últil da Usina de Candiota (Fase C) até 2040 – lei recentemente sancionada pelo presidente Lula, após aprovação pelo Congresso Nacional.
Presidente Lula se despede do amigo
Lula e frei Sérgio eram amigos de longa data
O presidente Lula e Frei Sérgio cultivavam uma amizade anterior à presidência da República (Lula está em seu terceiro mandato). Durante a prisão dele na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba (PR),Frei Sérgio esteve duas ocasiões levando conforto espiritual ao amigo.
Assim que soube da morte, Lula publicou em suas redes sociais uma despedida e o sentimento pela partido. “Estou muito triste com a partida de meu grande amigo, Frei Sérgio Antônio Görgen, que faleceu aos seus 70 anos. A fé e as sábias palavras de Frei Sérgio durante suas visitas em Curitiba me ajudaram a atravessar com força e esperança os momentos difíceis da prisão injusta a que fui submetido. Ele carregava consigo uma história de vida exemplar. De luta e de sacrifícios pessoais – incluindo greves de fome – para garantir os direitos daqueles que vivem da agricultura familiar. Frei Sérgio dedicou sua vida a cumprir o ensinamento de Cristo: “Dai de comer a quem tem fome”. Lutou pela alimentação do corpo e da alma. E deixa esta vida com sua missão cumprida, que seguirá servindo de exemplo e inspiração a todos nós. Descanse em paz, companheiro”, escreveu o presidente.
A ex-presidente da República, Dilma Rousseff (2011-2016), atualmente presidente do Banco dos Brics, também escreveu em suas redes sociais, homenageando o frei, assinalando que o Brasil perdia um herói da luta pela reforma agrária e pelos direitos dos trabalhadores rurais.
Homenagens de norte a sul do Brasil
Missa de despedida com o bispo Dom Cleonir em Candiota
A grande da vida de Frei Sérgio se confirmou com a quantidade de homenagens que vem recebendo desde a sua morte. De sul a norte do Brasil, lideranças e pessoas do povo estão manifestando suas condolências e lamentando sua partida. Além disso, a notícia da sua morte foi dada por diversos veículos de comunicação. As prefeituras de Hulha Negra e Candiota decretaram luto oficial por três dias.
Despedida na comunidade São Roque, no assentamento Conquista da Fronteira, em Hulha Negra – local onde frei Sérgio morou nas últimas décadas
Entidades e políticos têm se pronunciado nas redes sociais, à exemplo do presidente Lula. Os ex-governadores Tarso Genro e Olívio Dutra (ambos do PT), manifestaram pesar pela perda. “Faleceu o Frei Sérgio, cristão autêntico, lutador incansável pelos direitos dos desvalidos, dos pobres, dos explorados. Rico em generosidade, forte nas suas ideias de instituir no mundo uma comunidade de fraternidade e igualdade, deixa já – nos seus amigos e companheiros de jornada – uma saudade imensa, antecipada, incontornável, mas também estimulante de novas lutas e novos compromissos. Tive o privilégio de ser seu amigo”, escreveu Tarso.
O último adeus no Convento Boaventura, no distrito de Daltro Filho, em Imigrante. Na foto o ministro do Desenvolvimento Agrário,
Paulo Teixeira faz sua despedida
O velório iniciou na tarde de terça na comunidade São Roque, no assentamento Conquista da Fronteira, em Hulha Negra. Depois, em Candiota, no salão da comunidade católica, no centro da cidade, uma missa foi celebrada pelo bispo Dom Frei Cleonir Dalbosco. Por fim, o corpo foi trasladado para o município de Imigrante, na localidade de Daltro Filho, no Vale do Taquari, onde está localizado o Convento Franciscano São Boaventura. Lá, já na quarta-feira (4), seguiu o velório e os ritos de encomendação, com a presença de deputados estaduais e federais e dos ministros do Desenvolvimento Agrário (MDA), Paulo Teixeira e da Secretaria de Economia Solidária, Gilberto Carvalho; o presidente da Companhia Nacional de Alimentos (Conab), Edegar Pretto; o presidente nacional, Cezar Aldrigui; o presidente da Fundação Banco do Brasil (FBB), Kleytton Morais; o ex-governador Olívio Dutra e o coordenador nacional do MST, João Pedro Stédile.
O sepultamento aconteceu por volta das 16h de quarta, no cemitério particular dos freis franciscanos, junto ao Convento.
Frei Sérgio deixou uma legião de amigos e correligionários, além de dois irmãos e quatro irmãs.



