* Cristian Canto
Nos últimos dias, o Brasil assistiu à escalada de um debate urgente: a adultização de crianças e adolescentes. O termo pode soar técnico, mas descreve algo cada vez mais comum e preocupante em nossa sociedade. Trata-se da exposição precoce dos mais jovens a comportamentos, responsabilidades e contextos próprios da vida adulta, sem que estejam preparados para lidar com suas implicações emocionais e psicológicas.
O caso que colocou o tema no centro das atenções envolve o influenciador digital Hytalo Santos, que, segundo denúncias, teria promovido a exposição de adolescentes em conteúdos com conotação sensual, festas e rotinas incompatíveis com a idade. As acusações não surgiram de um dia para o outro. Entre dezembro de 2022 e fevereiro de 2023, o TikTok notificou Hytalo mais de 140 vezes por violações de segurança relacionadas a menores. Vizinhos também relataram gravações com barulho e presença de crianças até altas horas.
Mesmo assim, medidas concretas só foram tomadas em agosto de 2025. Por quê? A resposta está no ritmo do sistema judicial: apurações desse tipo exigem coleta de provas, análise criteriosa e preservação do sigilo, já que envolvem menores de idade. O Ministério Público da Paraíba e o Ministério Público do Trabalho já investigavam o caso, mas a engrenagem burocrática, somada à falta de atenção midiática, manteve o processo lento.
Tudo mudou em 6 de agosto de 2025, quando um vídeo do influenciador Felca viralizou, denunciando a suposta adultização. A pressão pública foi imediata. Em poucos dias, a Justiça determinou a suspensão das redes sociais de Hytalo, o afastamento de adolescentes, a apreensão de equipamentos eletrônicos e a desmonetização de seus canais. Uma reação rápida — mas tardia para quem esperava que a proteção à infância fosse prioridade desde o início.
Por que era tão demorado e difícil antes do vídeo do influenciador?
É só descaso ou há algo mais?
Esse episódio revela uma contradição: embora a Constituição e o Estatuto da Criança e do Adolescente garantam proteção integral, na prática as respostas muitas vezes chegam só depois que casos ganham grande repercussão. A infância, tão curta e preciosa, não pode depender de “viralizar” para ser defendida.
Mais do que punir culpados, é preciso criar mecanismos eficazes para detectar e agir contra a adultização desde os primeiros sinais. Isso inclui plataformas digitais mais responsáveis, fiscalização ativa e políticas públicas que reconheçam a vulnerabilidade de crianças e adolescentes no ambiente virtual.
Afinal, quando a sociedade se omite, a infância deixa de ser vivida e o futuro, inevitavelmente, se perde um pouco no caminho.
Os responsáveis sabem quem são as pessoas que “seguem” seus filhos?
JÁ FOI CONTEÚDO NO IMPRESSO


