Rio de Janeiro

Faz pouco menos de quarenta anos que fui ao Rio de Janeiro pela primeira vez. Como meu pai morou por lá nas décadas de 40 e 50 do século passado, eu tinha uma imagem algo romantizada da cidade, que se consolidou na juventude através da música e do futebol. No final dos anos 60 como não gostar do Santos ou do Botafogo de Carlos Roberto e Gérson, Rogério, Toninho, Jairzinho e Paulo César. Era mais ou menos como citar o Santos de Dorval, Mengálvio Coutinho, Pelé e Pepe.

Na primeira vez que andei por lá, subi o Corcovado, de táxi, coisa que não é de se indicar, vi de perto o Cristo Redentor e a cidade, assisti um jogo no Maracanã quase vazio, e não gostei do que vi. Nestes anos todos, voltei duas vezes e dei alguns breves passeios na parte rica da zona sul e outras três vezes com o objetivo de ir a Niterói e Maricá. O que é bem desagradável, só de pensar, ter de percorrer um trecho entre o Galeão (aeroporto) e a Ponte Rio-Niterói pela Linha Vermelha e ficar por alguns momentos na linha de tiro do Complexo do Alemão ou de algum arrastão na pista. Cada vez que passo por lá me parece que ficou pior.

O Rio de Janeiro me parece um caso perdido.

O sentimento de insegurança ao andar no Rio de Janeiro é total. Este é o meu sentimento. Acho que as pessoas que se arriscam a andar por lá, e alguns até falam que andam tranquilamente, me parece que não sabem avaliar o risco.

Quem vai do Galeão para o centro, além do risco, anda por uma cidade que fede em razão dos esgotos jogados sem nenhum tratamento em alguns braços ou riachos que desembocam na Bahia de Guanabara.

O Rio de Janeiro é um ambiente caótico. A única solução para quem mora nas favelas do Rio de Janeiro é ir embora dali. Muitos têm ido.

As favelas seguem regras estabelecidas pelo Comando Vermelho, por outros grupos, por milícias, e a polícia e a constituição brasileira não apita coisa alguma. A sociedade é refém de grupos criminosos que dão ordens e estabelecem a justiça que estes grupos definem.

O governo do Rio de Janeiro, através das polícias do estado, efetuou uma operação com o objetivo de matar e prender traficantes. Como a polícia é recebida a bala, devolve bala. Mas desta vez a polícia estava mais preparada para matar, inclusive através de emboscada nas matas que se sabe são rotas de fuga de traficantes.

Entre tubarões e lambaris, a ação pegou um grupo de pouco mais de uma centena de lambaris que foram mortos e outros tantos que foram presos. Os líderes nas favelas foram informados a tempo de fugirem. Os grandes líderes nem frequentam a favela.

O domínio dos criminosos é um domínio sobre o território. A polícia entrou num dia de manhã e se retirou no final da tarde. Será muito fácil substituir mortos e prisioneiros.

Evento como alguns que já vimos no passado. Fazem de conta que o Estado está agindo. O governador terá algum destaque e o ano que vem tem eleições. A ação no Rio de Janeiro teve motivação política muito maior que uma ação objetiva para minimizar os problemas sociais, que não são pequenos, causados pelas organizações criminosas que dominam o Rio de Janeiro e tendem a se expandir pelo país. Vou continuar acreditando que a motivação principal foi política.

O Rio de Janeiro é um ambiente caótico. A única solução para quem mora nas favelas do Rio de Janeiro é ir embora dali. Muitos têm ido.

Policiais mortos, outros feridos, e há governadores querendo enviar suas polícias para ajudar no Rio. Tudo por conta das eleições. Enviar os filhos dos outros à morte, como diria meu pai.

JÁ FOI CONTEÚDO NO IMPRESSO

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