No Brasil de 1989, o Brasil teve sua primeira eleição presidencial pelo voto direto em quase três décadas. Três anos depois, pela primeira vez na história nacional um presidente foi afastado do poder de maneira “democrática”, sem quarteladas ou remendos constitucionais. Nesse curto período, houve enormes manifestações populares e a maior intervenção na propriedade privada já vista no país, com o congelamento de contas correntes e da poupança. Foram anos de recessão e revolta. Ex-repórter e herdeiro de um grupo de comunicações, Fernando Collor tornou-se conhecido do eleitorado por meio de jornais, revistas e emissoras de televisão – os mesmos órgãos de imprensa cujas reportagens serviram de estopim para o movimento que veio a tirá-lo da Presidência. Falaremos hoje, por via de consequência, da obra “Notícias do Planalto”, de autoria do jornalista Mario Sérgio Conte.
O livro em comento buscou detalhar a relação da imprensa com Fernando Collor e seus aliados. Pretendeu mostrar como agem os jornalistas, que laços estabelecem com o poder político e como funcionam as redações da grande imprensa – essa corporação que investiga todos os meandros da vida nacional e tão pouco revela de si mesma. A figura abordada na obra como centro dessa interlocução, no mais, dispensa apresentações. Collor, figura que estimulava a euforia e as mais sinceras esperanças populares, em aproximados três anos foi do auge para o ostracismo – ao menos naquela quadra dos acontecimentos. Houve o ressurgimento, é importante registrar. O fato é que Fernando Collor de Mello sempre despertará atenção.
Tendo como fio condutor as principais reportagens do período, a obra conta como repórteres, fotógrafos, editores e donos de meios de comunicação trataram o Palácio do Planalto e por ele foram tratados. Em boa medida, a cobertura política de um órgão de imprensa é produto da sua história. A maneira como ele apura, apresenta e analisa as notícias é o resultado de uma tradição, retrabalhada a cada dia, a cada nova edição. Por isso, foi traçado o perfil de jornalistas que tiveram um papel formativo na história recente da imprensa.
O livro foi feito com base na leitura da imprensa da época, dos livros que constam na bibliografia e em entrevistas com 141 pessoas. O autor registra, para tanto, que garantiu aos entrevistados que não revelaria quais fontes contaram os casos narrados em “Notícias do Planalto”. Mas ele obteve a concordância para apresentar os seus nomes no final do volume.
Esta obra, então, aborda aquele que foi um dos acontecimentos políticos mais relevantes da história brasileira, traçando a ascensão e a queda de Fernando Collor de Mello, tomando como base o agir da imprensa nessa caminhada. Assim sendo, da Gazeta de Alagoas à Veja, e da Tribuna de Alagoas à Rede Globo, Mario Sérgio Conte apresenta uma radiografia precisa da abordagem de todos esses veículos de comunicação. E ressalta, por fim: “dos jornalistas que cobriram a campanha, o governo e a queda de Fernando Collor, alguns trocaram de emprego. Outros foram promovidos. Há quem tenha passado meses desempregado. Uns poucos abandonaram a profissão. A maioria deles, no entanto, continua à caça de notícias do Planalto”. Vale, pois, a leitura.
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