O alvorecer da República: afinal, proclamação ou golpe de Estado?

15 de novembro marca a data comemorativa da Proclamação da República no Brasil. Sim, sabemos bem que a data já passou e que se poderia pensar que nós teríamos perdido o “timming” da ou na escrita. Vale explicar, então, a razão da coluna de hoje lidar com uma data comemorativa que se consumou na semana passada: a questão é não gostaríamos de ter “estragado a festa” ou algo do tipo – se bem que 15 de novembro de 2025 acabou sendo um sábado. Passado, então, o acontecimento, além do pomposo desfile ocorrido em Brasília, é que agora vem a nossa escrita.

A ideia republicana já possuía, nos últimos anos do período monárquico,marcante presença no seio do debate público, além de certa aceitação por camadas importantes da sociedade – ao menos desde o manifesto republicano, de 1870, marco de incandescência dela.

Euclides da Cunha, em página notável de seu “Da Independência à República”, afirmou que o advento da forma republicana não deve ser confundido com a parada comemorativa de 15 de novembro de 1889. Pois ela já estava praticamente implantada, desde que se tornou irrefreável, segundo ele, a decadência da monarquia no país. E o Império contava com as suas crises, dentre as quais poderíamos citar algumas questões especiais, a saber: a)o próprio curso das ideias republicanas e o advento de uma nova mentalidade nos centros de influência da capital, inclusive a partir do “positivismo de farda” que estava em ascensão desde o término da Guerra do Paraguai (a questão militar); b) a questão da abolição da escravatura, defendida, dentre outros, fervorosa e magistralmente pelo grande Joaquim Nabuco (a questão da escravidão)e; c) a questão religiosa, no que tangia à separação entre Estado e Igreja.

Ocorreu que a gota d’água para o implemento do rapa na monarquia parece ter sido a queda do gabinete do Visconde de Ouro Preto, motivada que foi por uma quartelada comandada pelo Marechal Deodoro da Fonseca – a primeira quartelada. Derrubado o gabinete, as tropas foram recolhidas e Deodoro retornou aos seus aposentos. No entanto, logo após, tal como consigna Laurentino Gomes, Benjamin Constant informa que Silveira Martins, desafeto de Deodoro, seria o escolhido para suceder a Ouro Preto. Gaspar Silveira Martins e Deodoro da Fonseca eram desafetos desde há muito, fato que havia sido ocasionado por disputas, inclusive afetivas, tempos atrás no cenário do Rio Grande do Sul. Eles nutriam um sentimento figadal um pelo outro, se odiavam. E o fato da provável assunção de Gaspar ao comando do gabinete parlamentar seria, então, o último suspiro da monarquia – houve a segunda quartelada e a queda da Coroa. A Monarquia não mais existiria. A República estaria posta e consumada.

E o que representou, então, a chamada “Proclamação da República”? Um golpe de estado, eis a resposta. Um golpe militar, independente dos juízos de valor que se possa fazer acerca disso, foi o que houve.  A República, sem que tivesse havido aderência popular, foi “proclamada” a partir da caserna. E o povo assistiu àquilo bestializado, eis a frase eternizada pela pena de Aristides Lobo, jornalista e líder republicano, na coluna “Cartas do Rio”, publicada no jornal “Diário Popular”, tão logo consumado o governo provisório. O resto, bom, é história…

JÁ FOI CONTEÚDO NO IMPRESSO

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