Pausa para a vida

É preciso uma pausa na vida, no tempo. Para mim, para você, enfim, para todos aqueles que estão a viver o pesadelo dessa era cruel e desumana, onde homens matam mulheres inconformados com o fim de uma relação amorosa em que subjugam os corpos de suas companheiras, onde jovens matam cães por mero passatempo, em que profissionais da saúde injetam ampolas de desinfetante em pacientes idosos, onde os senhores da guerra escolhem ao seu bel prazer, quem, como e onde atacar nações inferiores, matando milhares de inocentes se não por rajadas de armamentos, que seja por falta de comida e de água, matando-os de fome e de sede. Preciso fugir de um mundo onde saúde, educação e até a morte são medidas e mediadas pelo lucro, onde as privatizações são meras equações financeiras, e onde a economia na mão de obra e na prestação de serviços, são o motor do ganho dos acionistas.

Preciso descansar de tudo aquilo que eu já sei, de tudo o que busquei como objetivo, preciso fazer uma pausa para me reorganizar, tentar resgatar os meus valores, mesmo que isso não signifique nada para os outros. Estou à procura desse lugar que possa me acolher, onde eu tenha pausa para respirar, para repensar, enquanto continuará a permanente ciranda do ir e vir, enquanto irá continuar o desamparo e o desespero de esperar e de não ter.

E, se eu tiver a sorte de encontrar esse lugar, pretendo chamar-lhe de lar, com a ilusão de que ele possa refazer a minha pulsação para que eu percorra seus caminhos, suas ruas e estradas, seus mares e florestas, todos limpos, saudáveis, sem nenhum tipo de poluição.

E que eu possa conservar a esperança de que sempre poderei voltar a esse lugar, onde eu descansarei. De tudo aquilo que eu já sei. De tudo o que busquei!

Pretendo conhecer mundos de cidades, ruas, calçadas, o interior das casas, o interior de quem habita essas casas. Conhecer as histórias que são contadas a centenas de anos, reavivar aquelas que foram apagadas, inclusive as histórias que ainda estão engavetadas e que são inéditas, na espera de ocorrerem. Histórias de tudo aquilo que eu já sei. De tudo o que busquei!

Irei recolher as minhas impressões, vou tentar curar minhas desilusões. Será preciso concentrar as emoções, mirando no coração, de vez em quando, cantar para afastar a tristeza. Vou saber ouvir todos os que se achegarem a mim, ouvir silenciosamente as frases, entender as pausas dos outros, diferenciar a claridade do amanhecer em relação ao ocaso.

E, calmamente, aguardarei o trem passar, sem me preocupar se ele vai atrasar, afinal será como se eu estivesse em casa, no lar do mundo. O mundo de tudo aquilo que eu já sei. De tudo aquilo o que busquei!
Se eu me entristecer porque a vida está passando rapidamente, vou lembrar de tudo que haverá de brotar novamente, nascer, florescer e crescer, e isso vai me fazer feliz. Por tudo aquilo que eu já sei. Por tudo aquilo o que busquei!

“NÃO É POSSÍVEL ENGANAR UM HOMEM QUE APRENDEU A ESCUTAR O SILÊNCIO.”

HÉLIO RIBEIRO.

JÁ FOI PUBLICADO NO IMPRESSO

Comentários do Facebook